SebastiánVielmas

No Chile, um movimento estudantil na rede

Traduzido por Natasha Ísis, do Canal Ibase

Os movimentos estudantis no Chile, desde os anos 80, se dedicaram basicamente a duas questões: primeiro, a oposição aos governos autoritários ou ditatoriais, como o de Augusto Pinochet, tornando-se parte de um movimento pela democracia que ofuscava qualquer reforma educacional proposta. Segundo, a reivindicação no âmbito estritamente educacional, incapaz de transmitir a sua ligação com o sistema socioeconômico neoliberal vigente no Chile.

Esta dinâmica foi abruptamente interrompida em 2006, quando a “Revolução dos Pinguins”, chamada assim por causa do uniforme dos estudantes secundaristas que a lideraram, começou a questionar o sistema socioeconômico e político que eram a razão subjacente da educação segregada e desigual do nosso país.

Entre os slogans formulados, chamou atenção a crítica transversal que se fazia aos políticos de esquerda e direita, criticando a presidente Michelle Bachelet, que venceu a eleição de 2005 com a proposta de um governo “cidadão”. Essa proposta era então desafiada.

Tratava-se do primeiro movimento social após o fim da ditadura militar a questionar os próprios fundamentos do sistema político, pactuados entre a oposição e os militares a gerando uma “democracia protegida” na qual se utilizaram diversos mecanismos para evitar mudanças profundas no status quo

Um componente chave da identidade chilena é o apego às instituições e à ordem como valor fundamental incutido pelo Estado. Até a ditadura de 1973, o Chile estava orgulhoso de ter um parlamento em sessão ininterrupta por décadas. O trauma da ditadura militar provocou no centro e na esquerda política um medo de desafiar os poderes constituídos.

O movimento de 2006, liderado por adolescentes, foi intenso, massivo e levou a sociedade chilena a um profundo debate sobre a desigualdade e a crise na educação. No durou muito, uma vez que a institucionalidade, através de mecanismos como mesas de diálogo e promessas de reforma, deu uma resposta que, ao fim, não seria satisfatória.

Em suma, a “Revolução dos Pinguins” provocou reformas importantes no sistema educacional, que no entanto não afetavam seus problemas estruturais. Em 2008, foi aprovada a Lei Geral de Educação, contra a qual resistiram os estudantes, que a rechaçavam por considerá-la um “remendo”, uma mudança insuficiente dentro do mesmo paradigma da educação de mercado. Mesmo sendo um movimento que levaria a grandes greves universitárias, a lei é aprovada graças a um acordo entre o centro-esquerda e a direita política.

O movimento estudantil de 2008 estava tentando conter uma lei, mas faltava um projeto alternativo que pudesse encantar. Não tinha a engenhosidade e criatividade dos secundaristas, mas algo havia mudado: as estratégias de comunicação.

Com a penetração da Internet na sociedade chilena, este tornou-se um meio privilegiado para a divulgação, inicialmente, das convocatórias estudantis. Isso evitava o chamado “bloqueio midiático”, em que a grande mídia omite informações sobre os movimentos sociais que desafiam o status quo.

Tudo isso nos dá o contexto para chegar ao ano de 2011. Esse ano, de maneira um tanto inesperada já que o país não tinha se recuperado do impacto do terremoto de 27 de fevereiro de 2010, surgiu um movimento inicialmente classificado como estudantil, mas que eu prefiro chamar de “movimento de educação”, pela extensão alcançada.

Dois fatores são fundamentais para entender o motivo desse movimento: em primeiro lugar, os dirigentes da universidade, especialmente, compreenderam que, após o fracasso de 2008 era o momento de propor uma reforma educacional a partir dos mesmos atores sociais na educação, sem esperar que os políticos entreguem as respostas. Assim, ao invés de ser contra a lei, seria executada uma proposta positiva.

Por outro lado, o fator que mencionamos da Internet e redes sociais: elas permitem convocar marchas, sem que necessariamente seja uma decisão dos representantes, e gerar e difundir manifestações criativas, como os beijaços, mas o mais importante é que todos os itens acima mostram que os líderes não têm o monopólio ou os mecanismos de controle sobre qualquer que seja a mensagem disseminada.

Nesse sentido, ao contrário dos paradigmas organizacionais da esquerda tradicional que são verticais e centrados nos partidos, os dirigentes assumem um papel mais próximo ao de gestores da comunicação, coletando informações e fazendo propostas à massa anônima, que se manifesta de toda forma nas marchas.

Um dos acertos do movimento pela educação no Chile foi apontar como um objetivo político o convencimento da família como um todo, e não apenas o aluno. Assim, a partir dos líderes, o slogan principal estava relacionado com o “fim do lucro na educação” e o ”fim do endividamento”, já que a crise de crédito é enorme por conta do alto custo da educação no Chile. Isto permitiu fazer algo que na Europa ou nos EUA, onde os alunos não vivem com seus pais, seria muito difícil: envolver pessoas além dos diretamente atingidos e tornar transversal a mobilização.

O componente de feedback, e também de tensão, podemos apreciar quando, assim que foram lançados esses dois slogans. Surge espontaneamente a proposta de assumir como bandeira de luta central a “educação gratuita”. Foi algo inesperado e para o qual os representantes não puderam mais que consolidar e defender os aspectos técnicos necessários para a esfera pública.

Este pequeno exemplo nos mostra uma das tensões próprias da comunicação dos movimentos sociais hoje: ninguém controla a mensagem e o movimento não pertence a ninguém. Para que perdure e seja bem-sucedido ao instalar temáticas depende unicamente de alcançar uma amplitude que envolva todos os cidadãos, e não apenas um grupo específico. Nesse sentido, alguns movimentos nos países desenvolvidos têm sido menos felizes, já que, no contexto das sociedades individualistas, torna-se mais difícil ter o processo de socialização política que vemos no Chile.

Através desta exposição, eu gostaria de abrir o debate sobre a necessidade de compreender o processo da comunicação dos movimentos sociais dentro de um novo paradigma, em que a mensagem não tem proprietário, mas meros administradores, que devem estar em sintonia com as massas para alcançar adequadamente modular. Também se deve apelar para as grandes maiorias para combater o poder dos meios de comunicação hegemônicos, impondo assim um sentido comum diferente do sistema econômico que se tem tentado formular como única alternativa.

Dessa vez, portanto, vale a pena compartilhar experiências, pois embora tenhamos vindo de diferentes culturas, as mídias sociais são universais e permitem criar e reproduzir globalmente. Uma pergunta interessante para hoje poderia ser se um aluno árabe tem uma maior relação cultural com um estudante latino-americano que com um adulto de seu próprio país.

O desafio final não é  para glorificar um movimento, propor respostas universais ou procurar respostas em líderes messiânicos, mas, sim, conquistar a participação do cidadão comum com maior intensidade que atualmente, quebrando a barreira geracional que observamos.

Artigo original publicado na Plataforma Ibase em 1 de agosto de 2013: http://www.canalibase.org.br/no-chile-um-movimento-estudantil-na-rede/

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